Às vezes, cansamos. Doamos muito, não recebemos "nada". De vez em quando, uma vitória, digna de ser lembrada por todo o sempre, aparece. E nos faz mais felizes e confiantes. Lutamos, esbravejamos e amamos. Porém, a cada ano que passa, parece que há algo maior que impede, de todas as maneiras, nosso crescimento. É histórico. Talvez por sermos os últimos a resistir e por sermos inconformados, loucos e apaixonados. Não desistimos mesmo. Sempre estamos junto. Mas cansa. Estamos, há tempos, dando murros em ponta de faca. Vestimos nossa segunda pele e carregamos no coração um sentimento lindo, inconfundível e difícil de ser encontrado por aí. Somos loucos, doentes e fanáticos. Nem eu entendo, às vezes, aquela multidão que surge. Às vezes, nem eu me compreendo. Por que faço isso? Por que meu coração acelera tanto num dia importante? Por que nasci tão fanático? Acho que, na verdade, fazemos parte de uma nação que nasceu para lutar, independente se iremos sair derrotados ou não. Lutar é nossa missão. Defender o que é nosso, também.
Desde domingo, estou sem motivação. A derrota está sendo difícil de aceitar. Estávamos lá, novamente, mostrando confiança e fidelidade. Não vencemos. Pensei seriamente a tentar deixar de ser tão alucinado por minha religião. Porém, quando estava entrevistando um aluno da UFPel para um trabalho, vi que somos o que somos porque nascemos assim. Sabe o que o aluno, de 40 anos, me disse? Que ser Xavante era a única coisa boa que possuía. Sabe o que aconteceu na Feira do Livro de Pelotas, ano passado? Um pedreiro, homem perto dos 60 anos, da raça negra, com humildade e brio nos olhos, adquiriu o livro sobre o acidente do Brasil, olhou para o fotógrafo da ZH, Nauro Jr., e disse que seria a primeira vez que leria um livro.
Viram? Nós somos loucos. Nós somos únicos. Negros, brancos, amarelos, verdes... não interessa a cor, religião ou sexo. Nós todos somos iguais, temos as mesmas características. O sangue que corre depressa por nossas veias é diferente. Nem eu consigo explicar. Nem sei por que também nasci assim. Apenas sei que lágrimas escorrem enquanto escrevo isto daqui. É um amor divino e sem nenhum nexo. Por que amamos o Brasil dessa forma? Eu não sei. Não sei mesmo. Gostaria de saber. Mas eu sei que não estamos lutando em vão. Mesmo que, um dia, não exista mais nenhum dessa raça, teremos deixado um legado de amor incondicional por mais de 100 anos, onde sofremos derrotas, humilhações e algumas alegrias. Não conseguirei parar de segui-lo. Já desisti de desistir do rubro-negro. Eu o amo, e assim será por todo o sempre.
@pedrohckruger
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| (imagem: Colecionador Xavante) |
"É difícil definir a torcida do Brasil de Pelotas. O espetáculo por ela patrocinado, a cada jogo de seu time, é impressionante. A começar pela multidão que vai ao estádio. Segue pela sua alegria. É contagiante. Pulam durante toda tarde. Fazem festa. Extravasam alegria. De um jeito ultrabrasileiro. Dançando, cantando, pulando. A bateria show é fantástica. Tem 50 componentes, aproximadamente, traz consigo todos os instrumentos normais de uma bateria de escola de samba, mais instrumentos de sopro.
A torcida Xavante é, sem dúvida, um fenômeno social. Merece um apurado estudo antropológico. É gente da gente. É povo. Trabalhadores humildes, sofridos, vítimas das barbaridades sociais de nosso País. Na maioria são negros. Bebem um monte. O consumo de cachaça no estádio é enorme. O futebol, para eles, é lazer. O único, talvez. Afinal, neste País de desigualdades, lazer é privilégio de poucos.
Fiquei extasiado com o que vi, domingo, no Bento Freitas. Vibrei com aquela gente. Senti a alegria de todos pela vitória do Brasil sobre o Grêmio. Falei com muitos. Fui assediado por eles. Queriam chegar perto de nós. Muitos maltrapilhos. Alguns desdentados. Outros embriagados, dizendo coisas sem nexo. No meio da alegria geral não faltaram reclamações. Uma professora chegou junto à nossa cabine e se identificou ao Rui Ostermann. Lembrou seu salário humilhante.
Lembrou a briga do magistério em busca de salário dignos. Mas a senhora professora falou, também, em futebol. Ela estava enrolada em um pano vermelho, identificando seu amor pelo Brasil de Pelotas. É assim a torcida do Brasil. É assim o futebol. Feito de povo, de alma, de amor".
Pedro Ernesto Denardin