A partir de um dado momento da minha vida iniciei a travessia de uma ponte. Não era muito longa, mas larga e com aspecto clássico. Uma verdadeira ponte centenária. Única construção humana, aliás, em quilômetros. Todo o resto é feito e mantido pela natureza.
Quando te encontrei e a convidei para atravessar comigo a ponte, sempre ao meu lado, deixei para trás o que eu julgava não mais necessário. Lá, em cima da construção que me dá acesso ao outro lado do rio, peguei o que eu não queria mais e o larguei na água. Amarrado a uma pedra grande, o pacote afundou.
Atravessei a ponte. Cheguei ao outro lado. Tu também. Só que, para o meu espanto, soltas a minha mão e retornas à ponte, de vez em quando. Lá de cima, preparas a vara, o anzol e travas uma luta contra a paciência. Começas, então, a pescar o passado.
Nos piores dias em que isso acontece, consegues puxar o pacote todo. Tu abres, mexes um pouco naqueles arquivos já sem vida, sem memória, sem importância, e jogas tudo para cima. Muitas vezes, até, os atira em mim. Aquela quantidade imensurável de papel molhado, que se desmancha ao mais sensível toque, se choca ao meu rosto. Como uma bala, me atinge.
Eu, em silêncio, não esboço reação. Porque toda a reação ocorre por dentro.
Depois de muita discussão, inclusive com uma espécie de griteiro feito à base de palavras covardes, que nossos ouvidos recebem com incredulidade, fazemos as pazes. Juntamos as mãos que não tinham nenhum motivo real para terem se soltado.
Então, pegamos o material, o embrulhamos novamente e o prendemos a uma pedra ainda maior. Jogo o mais longe possível para nunca mais ser acessado por ninguém. Lambemos as feridas e retornamos ao nosso lado do rio. Tudo, felizmente, retorna à maravilhosa realidade.
Só que os dias passam e a ponte se torna, novamente para ti, sedutora. Nessas horas eu não sei o que fazer. No máximo grito o teu nome, mas a minha voz não parece a mesma e a escutas sempre de forma distorcida.
Em meu íntimo, já ferido, só consigo fazer um pedido. Porém, sou incapaz de dizê-lo. Apenas a alma sussura o que, para mim, é um apelo.
“Por favor, meu amor, não suba mais a ponte. Fique comigo. Não faça do passado uma pescaria.”