Às oito da manhã já estou no serviço. Saí de casa com um pouco de atraso. Por conta disso não coloquei nada na barriga. Minha avó já dizia que saco vazio não para em pé, mas eu não sou um saco e permaneço em equilíbrio - dizem que sou um cara legal. As horas vão passando e noto que a fome, volta-e-meia, aparece. Depois some.
As horas vão passando enquanto acumulo tarefas. Concluo algumas, surgem outras, numa rotina insana e divertida. Quase meio-dia. O pessoal na rua ganha intervalo para o almoço. Algumas vão almoçar, outras aproveitam o tempo para encontrar o grande amor ou pagar contas e outras não têm dinheiro para ir comprar alguma fritura que a sustentem. Eu escolho não comer.
Há muito trabalho e pouco tempo. Não posso ter o luxo de almoçar, conversar um pouco, quiçá palitar os dentes, enquanto tenho pilhas de papeis e matérias à minha espera. A equipe criou uma expectativa e preciso cumpri-la e superá-la sempre quando puder. É a minha vida, é a minha rotina e a fome nada mais é do que mais um obstáculo.
A tarde vem e as pessoas já estão pensando no biscoitinho das quatro horas. Eu me limito a copos de plástico com café quente. A energia proveniente da cafeína é, na verdade, o meu sustento que sustenta também o meu vício pela poderosa bebida preta - qualquer semelhança à bebida refrescante com ratos é mera coincidência, nada mais. O café é a bebida mais forte!
Quase seis horas da tarde. Lembre-se que cheguei ao serviço por volta das oito horas da manhã. São dez horas de jejum e trabalho intenso. Está quase tudo terminado, aliás. Falta pouco para eu regressar à minha casa e, quem sabe, preparar uma torrada. Nada muito interessante, mas ainda assim uma torrada.
As matérias estão prontas e o jornal inicia a poucos minutos. Preciso ir para casa, ligar a tevê, assistir ao que produzi e, só depois disso, tomar um merecido banho. O beijo na esposa também é fundamental e é a primeira atividade ao pisar no carpete da sala. Ela (a esposa), sim, é o sustento, mas que sustenta uma vida, não um dia. 24 horas têm poucos segundos perto do que ela representa na vida de um homem que vê nela a companheira de vida e de histórias.
O jornal terminou e preparo as roupas para ir ao banho. Finalmente! Antes, porém, minha guria - que há pouco chegou do serviço - me convida para comer umas torradas. Estas feitas por ela - são muito melhores que as feitas por mim. Sento à mesa, preparo o meu pão e espero a torradeira fazer o resto. A minha esposa repete a ação. Nós dois nos beijamos enquanto a massa daquele pão de trigo é torrada pelas chapas quentes do eletrodoméstico que um dia revolucionou o cotidiano das pessoas, passando de nova tecnologia a item quase indispensável da cozinha americana e dos filmes de Hollywood em cenas que retratam o café da manhã.
O pão salta da torradeira. Pego o meu, ela o dela. Comemos. Sorrimos. Bebemos uma taça de vinho. A beijo na testa e vou, finalmente, ao banho. Enquanto a água cai em meu rosto e o xampu age em meu cabelo, reflito sobre o dia e a fome que sentira mais cedo. Chego à feliz conclusão de que o meu sustento diário é proveniente do amor de minha esposa e da minha felicidade em fazer o que amo. O resto é só comida.