segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Com a horta e Deus

Hey, vocês aí que contemplam o Sol. Como é a sensação?

Aqui na minha ilha só há nuvens e chuva. Os navios que por aqui deixam suas mercadorias levam também as nossas riquezas, mas não podemos fazer nada. Nossa terra foi tomada para que vocês aí possam contemplar o corpo celeste que cospe fogo. 

Não podemos impedir o roubo “legal” feito por eles. O Rei, afinal, ordenou e assim será. Peço aos Deuses que tenham piedade de nossas almas e peço também que Ele nos proteja, evitando que nos transformem também em mercadoria. Já ouvi histórias macabras, de pessoas que daqui saem para trabalhar forçadamente em algum campo longe daqui. Outros foram designados à produção de uma carne, que dizem ser salgada, chamada, eu acho, “charque”. Não sei se é verdade ou lendas inventadas por velhos nas tavernas.

Temo, no entanto, em ver com os próprios olhos essa história de terror e ser o personagem principal desta. Só quero viver nesta minha ilha, que um dia já foi de nosso povo, mas que agora está nas mãos do poderoso Rei, que diz ser o representante de Deus na Terra. 

Nossas mulheres foram raptadas, nossas crianças roubadas e nossos soldados mais vigorosos estão mortos. Não tenho esperança senão na minha pequena horta, que alimenta a mim e à minha família. Enquanto os olhos do Rei não caírem sobre a nossa pequena moradia, nossa vida estará segura.

E um dia, quem sabe, poderemos ver o Sol também.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Não chora

Já é noite de um domingo monótono e frio. Não há nada de valor na tevê. A internet carrega apenas o movimento da maioria, que por vezes não representa muito ou quase nada. Te vejo sentada na cama com o cobertor de lã de cor verde sobre as pernas enquanto olhas fixamente a parede. Porém, teu olhar está em outra dimensão. Não compreendo o que está acontecendo, mas sei que bem não estás. De repente, como se algo chamasse teu nome, olhas para mim e começas a chorar.

Não!...

Colocas a mão no rosto tentando tapá-lo ou escondê-lo de minha visão, mas mesmo se eu não a enxergasse saberia que o meu amor chorava. Corri para abraçá-la, perguntei "o que houve?", mas poucas respostas obtive. Na maioria das vezes escutei "não foi nada", "não é contigo" ou "é comigo mesmo".

Guria, entenda: nada mais é só contigo. O que antes era um, hoje é dois. Tudo foi duplicado e as sensações de nós dois estão mescladas. O que sentes influencia o que eu sinto e vice-versa. Não há nada no mundo ou fora dele que impeça que isso aconteça. Se choras, choro também. 

Enquanto encostavas tua cabeça em meu peito, olhei para cima e procurei alento numa tentativa quase vazia de receber socorro. Não havia nada à nossa volta. Só eu e tu, guria. 

Sequei teus olhos, beijei tua testa e afastei a mecha de cabelo que insistia em tapar os olhos verdes que miravam os meus castanhos. Eu disse "te amo". Tu dissestes "eu também te amo". Peguei na tua mão e uma lágrima no meu rosto escorreu; mesmo assim apertei teu corpo contra o meu e disse "não chora".

Não chora.
Não chora.
Não chora. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Sustentação

Às oito da manhã já estou no serviço. Saí de casa com um pouco de atraso. Por conta disso não coloquei nada na barriga. Minha avó já dizia que saco vazio não para em pé, mas eu não sou um saco e permaneço em equilíbrio - dizem que sou um cara legal. As horas vão passando e noto que a fome, volta-e-meia, aparece. Depois some. 

As horas vão passando enquanto acumulo tarefas. Concluo algumas, surgem outras, numa rotina insana e divertida. Quase meio-dia. O pessoal na rua ganha intervalo para o almoço. Algumas vão almoçar, outras aproveitam o tempo para encontrar o grande amor ou pagar contas e outras não têm dinheiro para ir comprar alguma fritura que a sustentem. Eu escolho não comer.

Há muito trabalho e pouco tempo. Não posso ter o luxo de almoçar, conversar um pouco, quiçá palitar os dentes, enquanto tenho pilhas de papeis e matérias à minha espera. A equipe criou uma expectativa e preciso cumpri-la e superá-la sempre quando puder. É a minha vida, é a minha rotina e a fome nada mais é do que mais um obstáculo.

A tarde vem e as pessoas já estão pensando no biscoitinho das quatro horas. Eu me limito a copos de plástico com café quente. A energia proveniente da cafeína é, na verdade, o meu sustento que sustenta também o meu vício pela poderosa bebida preta - qualquer semelhança à bebida refrescante com ratos é mera coincidência, nada mais. O café é a bebida mais forte!

Quase seis horas da tarde. Lembre-se que cheguei ao serviço por volta das oito horas da manhã. São dez horas de jejum e trabalho intenso. Está quase tudo terminado, aliás. Falta pouco para eu regressar à minha casa e, quem sabe, preparar uma torrada. Nada muito interessante, mas ainda assim uma torrada.

As matérias estão prontas e o jornal inicia a poucos minutos. Preciso ir para casa, ligar a tevê, assistir ao que produzi e, só depois disso, tomar um merecido banho. O beijo na esposa também é fundamental e é a primeira atividade ao pisar no carpete da sala. Ela (a esposa), sim, é o sustento, mas que sustenta uma vida, não um dia. 24 horas têm poucos segundos perto do que ela representa na vida de um homem que vê nela a companheira de vida e de histórias. 

O jornal terminou e preparo as roupas para ir ao banho. Finalmente! Antes, porém, minha guria - que há pouco chegou do serviço - me convida para comer umas torradas. Estas feitas por ela - são muito melhores que as feitas por mim. Sento à mesa, preparo o meu pão e espero a torradeira fazer o resto. A minha esposa repete a ação. Nós dois nos beijamos enquanto a massa daquele pão de trigo é torrada pelas chapas quentes do eletrodoméstico que um dia revolucionou o cotidiano das pessoas, passando de nova tecnologia a item quase indispensável da cozinha americana e dos filmes de Hollywood em cenas que retratam o café da manhã. 

O pão salta da torradeira. Pego o meu, ela o dela. Comemos. Sorrimos. Bebemos uma taça de vinho. A beijo na testa e vou, finalmente, ao banho. Enquanto a água cai em meu rosto e o xampu age em meu cabelo, reflito sobre o dia e a fome que sentira mais cedo. Chego à feliz conclusão de que o meu sustento diário é proveniente do amor de minha esposa e da minha felicidade em fazer o que amo. O resto é só comida.

domingo, 15 de setembro de 2013

Com razão

Eu tive razão quando decidi deixar a emoção falar mais alto, o coração bater mais forte, a pupila dilatar e a mão da guria dos olhos verdes pegar. Tive razão, o tempo me deu razão, eu me dei razão, ela deu razão. E aí deixei de lado quaisquer medos que pudessem me fazer evitar a rua pela qual ela passava todos os dias. Ou que me fizessem esquecê-la ou retirá-la dos meus sonhos mais sinceros. Sim, eu sonhei com ela - e ainda sonho, mesmo com ela do lado.

A vida me deu razão, mas a racionalidade que joguei fora ainda grita lá fora, do outro lado do muro, que não há razão nenhuma no que fiz: eu a pedi em namoro após três semanas de conversa e dois dias de beijos. Não foi racional, mas emocional. Com razão.

Desde o dia 22, há quase dois anos, tenho razão.
Todo dia é dia 22.
Todo dia tenho razão.

#22day | #EuTiveRazão

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Janela aberta

A janela está aberta, o vento entra, mas o calor continua a roubar a água do meu corpo que escorre pela testa. Estou sentado numa cadeira da cozinha, daquele tipo bem comum, enquanto admiro o monitor apagado do computador. As horas passam, há textos à minha espera, estou com fome, mas não me movo. Fecho os olhos e trago a escuridão ao quarto que tem a janela arregaçada enquanto lá fora sopram fortes os ventos da primavera. 

A estação das flores murchou a planta da casa. Ela não cresce mais. Água não faz surtir mais nenhum efeito. Há algo muito maior envolvido na morte da planta outrora tão verde e pujante. O que aconteceu?

O tempo livre, por vezes, é uma desgraça. Não há nada melhor do que ocupar a mente. Quiçá colocar os textos em dia solucione os problemas. Só preciso ligar o monitor, mas mover o dedo na escuridão em que me encontro é trabalhoso demais. Os mortais suportam ao suor, às inundações, ao vento frio, mas a falta de luz é algo desleal, que faz do mover o dedo um sacrifício. 

Apenas um ato de fé pode mudar o destino. O retorno da confiança em si próprio é fulcral para as ambições de todo aquele que se sente preso dentro de um quarto com a janela aberta.