terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O guri está vivo

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O guri ainda respira, sonha, escreve, caminha, sorri, dorme, gargalha, produz teorias, conta piadas ruins, pedala, penteia o cabelo, amarra o tênis, confere a barriga (encolheu?), beija o futuro, beija a mãe e o pai, bebe com os amigos e desconhecidos, folheia revistas, conversa sobre tudo, "aliens", corre, vai à praia, vai à moça do desenho, vai à vida, vai à luta, ele não desiste porque a vida vale a pena, vale o risco, vale "os corre", a vida vale. Vale tudo. Eu valho alguma coisa.

O guri está vivo.

GURI FORA DOS PADRõES

Seja bem-vindo de volta, PH.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

nunca esqueça o próprio coração

não faça como eu, caro jovem corajoso. não esqueça o mundo, pois ele não vai esquecer de ti. o mundo vai preparar muitas lições para a tua existência e boa parte delas não são bonitas. esquecer que o mundo existe é um erro comum que muitos cometem. eu cometi.

não faça o mesmo. quem avisa amigo é.

o mundo é um moinho, como cantou um dia o mestre Cartola.

eu não valho o esforço alheio. apenas eu posso mover as minhas pernas para frente. ninguém mais pode me ajudar. sou eu... e eu. será assim.

tentar me dar auxílio durante uma subida íngreme, exatamente igual a que eu trilho hoje, é um erro primário. pois para me ajudar (quem quer que seja, seja famoso ou anônimo incrível) vai ter de esquecer o próprio coração. e mesmo assim talvez seja em vão.

como o meu um dia foi. desperdiçado e jogado aos cães - em vão. por uma promessa vazia em outra residência. por uma promessa covarde, que se esconde por entre arbustos. por uma promessa do tamanho de quem troca um coração pujante por nada - a lição nunca é aprendida apenas por um aluno.

não existem turmas pequenas na escola da vida. ou somos todos aprovados. ou vamos todos repetir mais um ano.

a grande palhaçada desse tipo de lição é que os efeitos colaterais demoram a passar. por mais que o teu coração esteja se recuperando, por mais que a tua cabeça volte aos poucos a pensar criticamente, por mais que os teus projetos sejam retomados, os efeitos demoram a passar.

o mundo é um moinho, não é, Cartola? tens razão.

sinto na pele.

o que eu tenho para oferecer hoje são restos mortais do que um dia fui. é uma versão reembalada. recolocada na prateleira porque a roda segue girando. às vezes dá vontade de gritar PAREM AS MÁQUINAS - uma frase conhecida dentro da profissão escolhi. e parar com tudo. que pensamento pequeno, não é mesmo?

essas ideias bizarras só nos rodeiam ainda porque eu esqueci o meu próprio coração. que erro, jovem medroso.

Renato Russo, finalize, por favor...

Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo.
Quem roubou nossa coragem?

Renato Russo ainda pode acrescentar...

Este é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante. 
E a primeira vez é sempre a última chance. 
Ninguém vê onde chegamos...
Os assassinos estão livres, nós não estamos!


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Toques

Os teus gestos mais bonitos estão nos detalhes.

A maioria foca no que é visível, no aparente "mais popular", no macro, na propaganda, mas tuas atitudes, não; são tomadas baseadas em detalhes oriundos de conversas a princípio despretensiosas.

Os teus gestos são toques. 

É o tocar a mão, o cabelo; é pegar o lápis e traduzir algo abstrato em desenho; é o sair de casa e voltar com um pacote de amanteigadas. E, nessa hora, como manteiga o céu se derrete. Em dez cores. Amarelo, vermelho e laranja; branco, azul e cinza. Pássaros. Aquarela. Uma pintura natural.

Aliás, os teus gestos acontecem sem cessar. Não há recusa possível.

O gato pula em meu colo e deixa um rastro de pelos. Meu nariz reclama, mas em seguida sossega. O toque exige contrapartida, oras. 

De pés descalços passeio por teu território. Piso no parquê. Com as mãos desinibidas passeio por outro - mas ainda teu - território. Com menos amarras e medos do que antes, liberto-me aos poucos. A liberdade vem através de gestos. O teu toque traz independência.

Que a bandeira tremule, de uma vez por todas, em meu peito. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

eu sempre sei o final da história

a gente é punido e pune também por dizer a verdade.

em muitos momentos é difícil ser sincero. tive de tomar uma decisão com base no achismo, mas fundamentada na verdade. no que há de mais "certo" no momento.

foi estilhaço pra todo lado, inclusive em mim.

mas tenho a consciência tranquila de que não menti - a sua está tranquila?

é sinal de respeito mesmo em dias desleais. ser verdadeiro causa consequências, mas muito menores do que as causadas pela falsidade. 

fui fiel aos meus princípios, mais uma vez. 

estou mudando, mas a essência permanece lá e ainda respira.

Hey, quem sabe um dia? Não me espere porque isso não é justo, mas quem sabe? Talvez tenha sido muito cedo. Foi tudo muito rápido. Quem sabe um dia... O que é construído na (e de) verdade permanece.

interpretações

- eu não sou um cara ruim e tive boa intenção
- estou fechado para a vida, para o mundo, para tudo
- algo mudou

é, é verdade. até as decisões editoriais deste blog (tinha isso?!) mudaram. letra maiúscula não tem mais. parágrafo é piada. texto justificado só na revista caras.

a única certeza é que eu mudei. a minha boca que um dia distribuiu sorrisos hoje produz frases como "seria massa se a veia da minha testa estourasse e assim terminasse tudo". mártir de merda.

são interpretações que a gente passa a ter.

estou melhor, mas estou mudado. não sou um cara ruim, não sei se fui ou ainda sou bom, mas tenho boa intenção.

a boa intenção às vezes é paga de outras maneiras não tão belas.

aí a gente se fecha por proteção. mas ao fechar a porta a gente impede a entrada de novas boas notícias, novas boas pessoas, uma nova boa vida.

algo mudou.

domingo, 15 de janeiro de 2017

big eyes

Os olhos são a janela da alma, dizem. Mas em algumas pessoas os olhos são igual a um portão aberto numa tarde quente de verão. 

É impressionante a quantidade de informação que se pode extrair deles. Ou ainda o número inacreditável de perguntas "o que você está pensando agora?". 

Em mim?

Às vezes paro e observo os grandes olhos. "Como vim parar aqui?", questiono. "Por que eu não vim antes?", replico. 

Coloco para tocar Svefn-G-Englar da ótima banda Sigur Rós. O nome traduzido da música em questão é "anjos e sonâmbulos". Parece conosco. Sonâmbulos durante a madrugada. 

Aliás, dividir a madrugada é sempre um grande prazer. Ora, quem vai em busca de milho às duas e meia da manhã?

Rimos muito.

Ainda estou descobrindo o que há dentro do salão e portanto aproveito que o portão está aberto -- por isso eu gosto do verão: é preciso abrir as coisas para o vento aliviar o calor (e ainda mudar um pouco as coisas de lugar).

De repente sinto uma vontade enorme de morar em teus olhos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Apenas as luzes da cidade me acompanham


Não há ninguém por perto. Mergulhado em pensamentos, calmamente aguardo o transporte coletivo que não chega. A rua está escura. Não há música nos meus fones de ouvido. Não há novas mensagens no smartphone. Não há esperança. 

Apenas as luzes da cidade me acompanham. Depois de uma jornada de trabalho, no qual sou mal remunerado (como quase todo mundo), eu apenas quero o meu apartamento, cujo também está vazio, escuro e sem vida.

Já faz algum tempo que convivo com essa solidão. Esta ao menos é verdadeira. Há tanta gente rodeada de gente e sozinha ao mesmo tempo, não é verdade? 

Às vezes estar sozinho não é tão ruim. A diferença é que nunca vai se tornar em algo bom. A solidão quase sempre é um mal necessário - ela é fundamental para a nossa autocrítica, autoavaliação, autoajuda, autoqualquer coisa. 

E quase sempre estou sozinho. Espero que não apaguem as luzes. 

Lixo

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Lixo. É a palavra que resume tudo. Depois de dias insossos, a gente tenta se reencontrar. Por alguns momentos consegue, mas a verdade sempre vem à tona. Em frente ao espelho vejo o meu rosto. Na pele as marcas de uma vida que há pouco atingiu 1/4 de século. A memória guarda bons e maus momentos - mas é impressionante como apenas uma lembrança ruim aniquila centenas de outras boas. É tudo um grande saco de lixo. A gente caminha mais um pouco, alguns dias passam, e novas pessoas se aproximam. Conversam, riem e bebem conosco. Finalmente os meus olhos enxergam uma nova vida. Um recomeço. E a gente começa sem planejamento, sem freio e sem escrúpulos para depois descobrir que cativou um outro coração alheio. A realidade entra em cena, nos tapeia o rosto e grita em nossos ouvidos: és lixo, magrão, és mais um lixo contaminando uma vida, seja ela qual for. Volto ao espelho, novamente fito o meu rosto e concordo: me transformei em lixo. O que um dia achei que fosse uma qualidade, hoje vejo que na verdade não passa de lixo. Lixo, lixo, lixo! Não há mais o que fazer. Parte de mim morreu. Talvez a melhor. O que restou é apenas lixo. Hoje espalho lixo por aí. O guri que escreveu por noites a fio neste blog não existe mais. Este texto porcamente editado é o último resquício, o último suspiro, o último batimento de um coração que um dia lutou por amor -- e hoje sua tarefa é executada automaticamente: bombear o lixo que resta.



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