Não foi a primeira tempestade. Naqueles degraus construídos tijolo a tijolo na década de 40 fiquei muitas vezes ensopado e com a carteira enrolada numa sacola de supermercado. Mas desta vez, naquele domingo, naquele temporal, naquele mesmo lugar, eu, com a mesma capa de chuva, notei que foi diferente de tudo o que outrora presenciei.
Por um momento de puro desligamento com a realidade, enquanto entoava cânticos já cantarolados por gerações passadas, senti como se estivesse sozinho por lá, como antes foi. Eu, a chuva e a arquibancada. Mas desta vez, não. Definitivamente, não.
Olhei para o lado e a enxerguei apesar da chuva, do vento forte que atingia o meu rosto com violência, apesar da visão turva por causa da água, apesar da capa de chuva que mais molhava do que protegia. Enxerguei ali, do meu lado, olhos que também miravam os meus.
Lamento não ter nenhuma fotografia do exato momento em que ela sorriu. Ao nosso redor o mundo desabava e as pessoas cantavam, mas, naqueles segundos que quase congelaram, eu só consegui notar o sorriso mais belo que já tive o prazer de vislumbrar.
Os olhos verdes, o sorriso bonito e o rosto molhado. O céu explodindo em relâmpagos e eu explodindo por dentro.
Eu nunca, em nenhuma hipótese, vou esquecer o que vi.