quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Água gelada

Tento escrever, mas não consigo.
Sentado nesta cadeira velha cheirando a algo velho, passo os dedos na máquina de escrever.
Ela está fria porque não saem palavras no papel amassado.

Merda!

Vou à cozinha e bebo um pouco d'água gelada da jarra.
O calor me faz suar, mas não mais que essa minha incapacidade momentânea (?) de passar ao papel o que sinto. Maldita máquina de escrever! Talvez a culpa seja dela. 

Procuro na gaveta da escrivaninha uma caneta, um lápis ou uma pena.
Apesar de encontrar uma caneta, ela parece estar sem tinta. Encontro também um lápis, mas não tem ponta. E a pena? Não possuo nenhuma. 

Opa! Tenho uma pena, sim: pena de mim.

Quero escrever! Por que é tão difícil?
E tudo está tão quente com tamanho calor.
Mas nem o verão consegue aquecer a lata fria da máquina de escrever que não escreve.

E não há sentimentos gravados neste papel da mesma forma que há na alma. 
Queria poder escrever tudo o que sinto. Digitar todas as minhas dúvidas e receios sobre o futuro. Mas simplesmente não consigo. Sou incapaz para tal tarefa.

Resta-me ficar bebendo um pouco de água gelada enquanto o Sol queima a grama. 
Resta-me aceitar a condição de escritor que não escreve.
Ou resta-me escrever! Porque escrevendo o que não consigo, acabo rabiscando a folha, marcando páginas, aquecendo a sala, tornando o verão numa brisa quente se comparada à lataria febril da minha máquina de escrever.

Que calor está nesta sala... estou suando.
A máquina está quente, trabalhando muito.
Preciso de uma pausa para beber um pouco mais de água gelada.

2 comentários:

  1. Caraca!!! poesia pura e é bem assim que a gente se sente quando não consegue escrever e quer ou precisa. Simplesmente PERFEITO!!!

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