sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Olhos curiosos

Hoje, no ônibus, eu lia o livro-reportagem "A noite que não acabou", que fala sobre o acidente do querido Xavante, escrito por Nauro Jr. e Eduardo Cecconi. É um trabalho incrivelmente detalhado sobre o acontecido. E eu já havia lido na época em que foi lançado, mas releio para fazer um trabalho acadêmico.

Enquanto eu folheava aquelas páginas que narram um fato triste e histórico, uma menina, aparentando ter uns seis anos de idade, sentou-se ao meu lado. Algo normal num transporte coletivo. Mas com o passar do tempo percebi que ela prestava atenção no que eu fazia. Parecia tentar ler (ou lia, de fato) o que estava impresso naquelas folhas. E, ao mesmo tempo, olhava para mim. Dava a impressão que ela queria saber o que os meus olhos diziam, ocultos em razão das lentes escuras do Ray-Ban.

E isso continuou por alguns minutos. Porém, ao ler determinado trecho do livro, todas as memórias daquele janeiro de 2009 vieram e não consegui controlar a minha reação. Fechei o livro e olhei para cima. Uma lágrima tentava cair, mas eu não aceitava. Era uma luta contra o inevitável. Não é possível não sentir toda aquela tristeza ao ler o livro. É impossível não escutar novamente aquele silêncio fúnebre que surgiu em minha casa e na casa de todos os rubro-negros. E a menina, com certeza, percebeu que algo ocorria...

Mas reabri o livro. Preciso relê-lo. E continuei a desafiar as minhas memórias, apesar de saber o que iria ocorrer nas páginas seguintes. E ela continuou a me observar. E foi assim até o ônibus chegar ao meu destino. Eram olhos curiosos àquele livro e ao guri que não queria chorar a morte dos ídolos de toda uma gente.

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