Quando pequenos logo somos colocados para estudar. Normal. Toda criança deve ser alfabetizada e ganhar conhecimento para ser livre. E com o tempo e todo esse aprendizado passamos a perceber algumas características da vida escolar. Sabemos quando o professor é bom ou está com má vontade perante a turma, por exemplo. E isso acontece! Mas também percebemos quando o profissional da educação está desanimado, desapontado, desiludido, desmotivado, enfim, com a profissão ou com os alunos. Muito vi...
Passei nove anos de minha vida estudando na Escola Municipal de Ensino Fundamental Piratinino de Almeida. Era ótima, fiz grandes amigos e minha turma botava para fuder quebrar! E muitos estudavam para caramba. E lá vi alguns professores desmotivados. Entretanto, não parecia que nós éramos os culpados - talvez éramos, mas não os únicos.
Porém, depois de concluído o ensino fundamental, migrei ao Monsenhor Queiroz, escola estadual daqui de Pelotas, que se localiza "em frente" à linda Catedral São Franciso de Paula. Naquelas salas de aula foi onde vi algumas cenas que não esquecerei jamais. Professores que possuíam muito, mas muito conhecimento, mas que demonstravam em seu olhar o cansaço físico e mental. Era evidente a desmotivação, visto que turmas inteiras ignoravam a presença do profissional. E eles queriam passar algo e não podiam. Não conseguiam controlar a sala de aula - ou talvez desistiram e se renderam nessa batalha diária e desleal em que viviam.
E muito vi essas cenas. E não eram dois nem três professores. Foram mais. Não conseguiam dar uma aula como gostariam. Em algumas ocasiões o barulho não existia. Porém, ninguém estava escutando o que o professor dizia. Dormir ou rabiscar o caderno era melhor, apesar do tema da aula ser relevante e com o vestibular cada vez mais próximo. É complicado.
A vontade de aprender depende de cada um. É uma grande verdade. Mas ninguém gosta de ser ignorado, ainda mais quando é (mal) pago para passar conhecimento aos estudantes. A pergunta que deveriam fazer para eles mesmos naqueles momentos insanos da aula seria "o que ainda faço aqui?".
Galera, essas minhas observações de alguns anos não servem para desmotivar aos que querem começar uma carreira de professor, mas é um alerta. Vocês conviverão com estudantes interessados, esforçados, repugnantes e desinteressados. Haverão aqueles que sofrem com problemas em casa, na rua, ou em ambos. Também existirão os que possuem uma grande facilidade em alguma área e não irão aproveitar-se dela. É a realidade.
E para tirar esse clima depressivo sobre o texto, digo-lhes que vi os mesmos professores tristes e desapontados na sala, sorrirem fora dela: foi na formatura do ensino médio. Vi o sorriso pelo sucesso dos alunos que mereceram. Eles também sorriem quando nos veem na rua e perguntam "o que estás fazendo da vida?", e respondemos que estamos cursando uma faculdade. Essa é a motivação que os fazem continuar na profissão. Apesar do salário, das más condições e dos trinta alunos trancafiados numa sala gritando feito animais silvestres, eles sorriem ao ver que alguns poucos superaram as suas dificuldades, sejam elas envolvendo problemas familiares, financeiros, emocionais ou de saúde, entre tantos outros.
Vencer na vida como estudante é valorizar o trabalho realizado para nós.
Vencer na vida como estudante é conquistar o sorriso no rosto mais triste da vida daquela pessoa desmotivada na profissão.
Vencer na vida como estudante é demonstrar que o esforço de muita gente valeu a pena.
Ah! e uma ressalva: só porque existem alguns que conseguem ultrapassar barreiras e chegar aos seus objetivos na vida escolar não significa que "tudo está bom", pois não está! Extraordinários, logo poucos alunos, existirão sempre. Mas deve ser a meta número um do Estado formar o restante e transformá-los em excelentes alunos, resultando em excelentes profissionais. Será proveitoso para todos!
E quem sabe, no futuro, alguém possa escrever um post com o mesmo título deste, "Muito vi", mas que relate o seguinte: Muito vi em minha sala de aula boletins com notas altas e professores orgulhosos do nosso esforço...
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