sábado, 22 de dezembro de 2012

Filho da mãe!

Os pingos de chuva persistem em cair na noite escura e quente. Parado enquanto aguardo a chegada do ônibus, o rapaz observa o vermelho mudar para verde que, por sua vez, passa para amarelo, retornando, enfim, ao vermelho, num ciclo infinito. Refiro-me aos semáforos presentes numa encruzilhada. Duas ruas se cruzam, fazendo do vai-e-vem de automóveis algo bastante comum.

Enquanto a fraca chuva molhava lentamente o asfalto, uma cena chamou-lhe a atenção.
"Cê tá loco?!... Filho da mãe!"
A dona de tal frase era uma senhora de, aparentemente, 65 anos. Com cabelos brancos e um cachorrinho da raça poodle preso pela coleira, a mulher atravessava a rua, calmamente. Ela estava sob chuva e sobre a faixa de pedestres. O semáforo mostrava o sinal de cor rubro para veículos. Tudo dentro dos conformes.

No entanto, um automóvel de cor escura, tão escura quanto aquela noite, surgiu. Sempre avante, o veículo não freou, apesar do sinal vermelho, da faixa de pedestres e da senhora que transitava calmamente com o pequeno cachorro de pelos brancos. O motorista da caminhonete ignorou todos os fatos que obrigavam-no a parar e passou em frente à senhora, desprezando, pois, o direito alheio de trafegar em segurança.

Nada mais natural, portanto, a reação da senhora através de uma frase pragmática e assertiva.
[...] Filho da mãe!
Depois de presenciar cena tão incomum, louco seria não transpô-la ao papel. A atitude daquele filho da mãe não poderia ser ignorada da mesma forma que o sinal vermelho foi.

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