quarta-feira, 25 de abril de 2012

Preconceito ao ar livre

Numa noite gelada, por volta das dez horas da noite, após um dia intenso, o corpo está cansado e sentimos frio. Porém, deixamos de lado tais sensações para acompanhar uma procissão que se aproxima. Era um grupo de pessoas que cantava para Ogum (ou São Jorge, para os católicos) no último dia 23, data da morte do padre e soldado romano. Entretanto, ninguém espera ouvir palavras derivadas de um preconceito tão cruel e covarde.

Enquanto o grupo, composto por cerca de trinta religiosos e simpatizantes, passava por nós, em frente ao campus Porto da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), ouvi comentários preconceituosos e desnecessários. “Que horror isto daí”, diziam. “Vou me esconder”, outros comentavam e ironizavam. Os que não falavam, apenas riam, mas participam de qualquer forma daquela ação tão pobre. Atitudes que enfraquecem a minha esperança numa evolução dos seres humanos e da sociedade como um todo.

Além disso, também fui obrigado a ouvir que aquele grupo deveria estar “fumando no meio do mato”. Na verdade, seres racionais (?), aquelas pessoas estavam prestando uma homenagem e um agradecimento a Ogum. É uma droga ouvir palavras tão baixas. É uma vergonha para mim, como ser humano, escutar meus semelhantes rindo e humilhando os outros. É horrível ter que escrever um texto desse tipo, mas preciso – através das palavras – firmar a minha indignação e denunciar o preconceito cometido a céu aberto para todo mundo ouvir.

Não peço que todos saiam de suas casas e participem da celebração religiosa. Também não estou sugerindo que aplaudam a procissão que passa. Apenas peço respeito às pessoas. Naquele grupo havia homens que carregavam nos ombros a imagem de Ogum, um santo para eles. Não precisas acreditar nisso, mas não sorria maldosamente, não ironize nem me envergonhe. É tão complicado respeitar? Ou é mais legal humilhar pessoas que homenageiam algo em que elas acreditam? Não posso crer que a segunda opção seja a escolhida.

Ter uma eventual descrença em algo não lhe dá o direito de zombar daquelas que creem. Infelizmente, tais cenas de intolerância e covardia não saem da minha cabeça. Aos que aprovam as atitudes denunciadas, o meu pesar. Aos que desaprovam quaisquer preconceitos, somos poucos, mas juntos seremos muitos. Para encerrar, um adendo: não sou umbandista. Sou espírita. Mas antes de tudo sou um guri que sonha em viver numa sociedade na qual não haja a possibilidade de presenciar preconceitos na porta da universidade - nem em lugar nenhum.

Foto: Nauro Júnior
Procissão com os religiosos e simpatizantes de São Jorge/Ogum. Foto: Nauro Júnior.

O texto acima, sem a fotografia de Nauro Júnior, também foi publicado no jornal Diário Popular - edição do dia 25 de abril de 2012. Clique aqui para lê-lo.
Agradecimento especial ao fotógrafo Nauro Júnior por "emprestar" a fotografia para a postagem no GURI FORA DOS PADRõES.

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