domingo, 6 de novembro de 2016

Afundar para emergir

Em uma dessas noites vagas, perambulamos de um barzinho a outro. Pedi sempre "pale ale" porque é um estilo de cerveja mais forte, mais encorpada. Fundamental para os dias atuais.

Fomos para um bar mais distante. O dono, dizem, se chama Zé. Lá, encontrei todos os tipos de pessoas e definitivamente não é o meu lugar. Sentindo-me um peixe fora d'água, e não tão desconfortável por conta da presença de alguns amigos, observei tudo e todos.

Um pouco bêbado, debati sobre política, futebol e religião com desconhecidos. São temas polêmicos, é verdade, e todos dizem sempre "não debatam sobre isso". Comigo, porém, o diálogo existe de qualquer forma e apesar de discordar de quase todo mundo, a conversa foi cercada de sorrisos. Eu gero empatia e não sei qual a vantagem disso até hoje.

O problema é que estou afundando para emergir.

Pedi mais um litro de cerveja. Desta vez a "comum". O dinheiro é finito. Minutos mais tarde, me peguei com um cigarro entre os dedos. Traguei sem qualquer tipo de experiência anterior. "Ouvi" a minha rinite alérgica gritar, de tal modo que o horror ecoou nos pulmões. "Foda-se", pensei.

Depois, surgiu outro. Desta vez, mentolado. "Manda". O vício não virá e a pior morte é aquela que conhecemos e não morremos, de fato. O mundo, meu caro, é um grande boato. As verdades são escondidas. Os amores verdadeiros são colocados de lado. As boas intenções são motivo de piada.

O que vale neste mundo doentio é a mentira, é o relógio de seiscentos paus no pulso, é a camisa com o crocodilo boquiaberto, é a cerveja "pale ale". A tristeza e a decepção com as pessoas nos corrompem e nos fazem fumar a morte em sã consciência.

Eu vou emergir, mas para isso eu preciso querer nadar. Deixe-me aqui embaixo com os tubarões, por enquanto, por favor.

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