quinta-feira, janeiro 15, 2015

Silêncio na pequena casa

Meu pai, meu amigo. Enfrentamos já há algum tempo um período chuvoso. Nuvens escuras, pesadas, carregadas. A chuva não cessa sequer por um instante. Parece que a grande tempestade, no entanto, só chegou agora.

Vejo-o cabisbaixo. Durante as conversas, repetes os fatos, relatos que já ouvi dezenas de vezes nos últimos dias. Porém, procuro escutar com interesse, pois o ato de falar talvez o ajude a superar todas as barreiras impostas, que foram criadas, parece, ao mesmo tempo. 

Estou aqui para ajudá-lo, mas sei que a minha mão, mesmo estendida ao máximo, é limitada. É difícil o filho ajudar o pai. Geralmente é o contrário e, aliás, sempre e continuo sendo auxiliado por ti e pela mãe durante as nossas caminhadas.

Corro até a nossa pequena casa. O vazio e o silêncio estão escancarados aos nossos olhos e ouvidos. Procuro o guarda-chuva porque a tempestade insiste em ficar - e não tem data para sumir.

Sei também, pai, que nós dois somos teimosos. Esbravejamos muito. E perdemos o sono, quando preocupados, com facilidade. 

No entanto, meu pai, há aquele ditado que diz: após a tempestade sempre vem a calmaria. É o que espero. Desejo vê-lo calmo, pois quando estás assim nós também permanecemos bem. 

Vamos superar. Eu acredito.

Ninguém rouba o amor de um filho. Nunca roubarão. Mesmo que matem este filho que bate no peito ao dizer o teu nome. O que sinto é atemporal, imaterial e se espalha pelo ar. Meu amor e admiração por ti, pai, inundam o meu ser.

Estamos juntos. A calmaria é logo ali.

À merda os problemas! Devemos sair desta pequena casa silenciosa, pois há outra maior, avermelhada e ensurdecedora. Agora veste a camisa, vamos ao estádio.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Saí, modéstia à parte, vitorioso nos últimos anos. 2015 marca o novo passo

Olho para trás, de 2009 para cá, e percebo que cresci e amadureci. Sem ter deixado de lado, no entanto, o meu lado guri e brincalhão. Ainda sou rabugento, me estresso com facilidade, o que não é bom para mim nem para ninguém, mas consigo identificar uma evolução na vida profissional e afetiva.

Terminei o ensino médio de uma forma muito bacana. Alcancei notas altas e aproveitei ao máximo as aulas que tive. Não quis curso pré-vestibular. Para poupar dinheiro, claro, mas também porque acreditava em mim e no meu retrospecto recente. Ora, se desbravei com êxito os campos do ensino médio, provavelmente me sairia bem no exame que avaliava justamente essa trajetória escolar. Que nada. No Exame Nacional do Ensino Médio de 2009 me saí mal. Bastante mal.

Foi um soco no estômago. Uma rasteira da realidade. Eu precisava de mais.

No ano seguinte, pedi aos meus pais a inscrição num curso pré-vestibular. Obviamente não foi o mais caro, ainda bem, mas ainda um bom curso. Me joguei de cabeça. Escrevo com orgulho que não faltei a sequer uma aula. Participei de todos os plantões (aulas a mais no fim de tarde) e produzi, no mínimo, de três a quatro redações por mês. Eu queria me vingar, me superar e, claro, honrar o investimento e confiança depositados em mim. 

Em 2010, venci. Duas vezes. 

No vestibular da Universidade Católica de Pelotas, universidade privada, passei em quarto lugar para jornalismo. Fiquei bastante satisfeito, apesar de ter feito a prova já sabendo as condições (financeiras, principalmente) que me impediriam de realizar o curso. Tudo bem. Era bom, mas não era o meu objetivo principal.

No Enem a história foi outra. Fui incrivelmente bem em português e história, além de ter ido satisfatoriamente em matemática, o meu, até hoje, “calcanhar de Aquiles”. Não entrei, no entanto, na primeira chamada. Sequer na segunda ou na terceira. O número de estudantes era maior do que o número de matriculados. Simplesmente selecionavam a UFPel e o curso de jornalismo, mas não realizavam, de fato, a matrícula. Fui à chamada oral já sabendo que estava dentro. Bastava a matrícula.

Hoje, dia 15 de dezembro de 2014, praticamente me despeço do curso de jornalismo. Afinal, meu Trabalho de Conclusão de Curso foi aprovado, dias atrás, com nota 9. Minha média geral no curso é alta, atualmente 9,1. Aprovado em todas as cadeiras. Realizei, também, inúmeros estágios na área da comunicação, como a televisão, o rádio e o impresso. Saio vitorioso. 

No entanto, 2015 marca o novo passo que deve ser dado. Já formado e com o emprego que tenho hoje, como assessor de imprensa na Câmara Municipal de Pelotas, além de outras atividades, preciso me preparar ainda mais. Refazer o desafio desempenhado e superado em 2010.

À minha frente, na estrada do trabalho e crescimento, observo o estudo da língua inglesa, a preparação para concursos que me ajudem a trabalhar com o jornalismo e me deem suporte neste mundo capitalista, além do importante mestrado e mais alguns artigos, que são sempre trabalhosos e enriquecedores.

O ano de 2015 representa o novo passo. Venci até hoje, até aqui, mas preciso saltar novamente. Tenho que prosseguir. Parar agora fará com que boa parte dos muros derrubados no passado recente sejam reconstruídos. Será o ano do trabalho. Talvez o mais importante da minha vida. Nos próximos 365 dias, o meu caminho será construído com os tijolos dos muros derrubados.

quarta-feira, novembro 26, 2014

Não faça do passado uma pescaria

A partir de um dado momento da minha vida iniciei a travessia de uma ponte. Não era muito longa, mas larga e com aspecto clássico. Uma verdadeira ponte centenária. Única construção humana, aliás, em quilômetros. Todo o resto é feito e mantido pela natureza. 

Quando te encontrei e a convidei para atravessar comigo a ponte, sempre ao meu lado, deixei para trás o que eu julgava não mais necessário. Lá, em cima da construção que me dá acesso ao outro lado do rio, peguei o que eu não queria mais e o larguei na água. Amarrado a uma pedra grande, o pacote afundou. 

Atravessei a ponte. Cheguei ao outro lado. Tu também. Só que, para o meu espanto, soltas a minha mão e retornas à ponte, de vez em quando. Lá de cima, preparas a vara, o anzol e travas uma luta contra a paciência. Começas, então, a pescar o passado. 

Nos piores dias em que isso acontece, consegues puxar o pacote todo. Tu abres, mexes um pouco naqueles arquivos já sem vida, sem memória, sem importância, e jogas tudo para cima. Muitas vezes, até, os atira em mim. Aquela quantidade imensurável de papel molhado, que se desmancha ao mais sensível toque, se choca ao meu rosto. Como uma bala, me atinge. 

Eu, em silêncio, não esboço reação. Porque toda a reação ocorre por dentro. 

Depois de muita discussão, inclusive com uma espécie de griteiro feito à base de palavras covardes, que nossos ouvidos recebem com incredulidade, fazemos as pazes. Juntamos as mãos que não tinham nenhum motivo real para terem se soltado. 

Então, pegamos o material, o embrulhamos novamente e o prendemos a uma pedra ainda maior. Jogo o mais longe possível para nunca mais ser acessado por ninguém. Lambemos as feridas e retornamos ao nosso lado do rio. Tudo, felizmente, retorna à maravilhosa realidade. 

Só que os dias passam e a ponte se torna, novamente para ti, sedutora. Nessas horas eu não sei o que fazer. No máximo grito o teu nome, mas a minha voz não parece a mesma e a escutas sempre de forma distorcida. 

Em meu íntimo, já ferido, só consigo fazer um pedido. Porém, sou incapaz de dizê-lo. Apenas a alma sussura o que, para mim, é um apelo.

“Por favor, meu amor, não suba mais a ponte. Fique comigo. Não faça do passado uma pescaria.”
"Cada palavra que digo são só palavras, e palavras são tudo o que tenho." (Words - Bee Gees)