quarta-feira, março 25, 2015

Devo ser estranho

Eu caminhava apressadamente por uma calçada estreita. Nos meus ouvidos, os fones reproduziam a música Love de John Lennon.

Love is you. You and me...

Que letra incrível. Que músico foi Lennon, um dos integrantes da banda mais bem sucedida do planeta, The Beatles.

Love is touch. Touch is love...

Não poderia ser diferente: eu ouvia e relembrava dos nossos planos, que estão tão próximos de serem alcançados. Era o caminhar de um jovem apaixonado.

Love is reaching. Reaching love.
Love is asking to be loved...


A melodia foi interrompida por um diálogo entre dois homens. Próximo a eles, uma mulher ouvia, discretamente.

- Tchê, quem tem uma mulher ferrado. Agora, quem tem duas mulheres é miserável.

Os dois, apenas eles, riram da piada sem graça, sem sentido. A mulher ao lado continuou quieta. E eu? Bom, eu devo ser muito estranho.

terça-feira, março 24, 2015

A maior derrota de um homem

Não é a ausência de grandes cifras na conta bancária, que seriam capazes de nos levar a todos os continentes do planeta, que me deixa cabisbaixo. O futuro incerto também não me causa tristeza, apesar dos receios que ele impõe. A derrota do time do coração não representa a maior das quedas, mesmo eu apaixonado pelo pelota que rola nos gramados afora.

Essas coisas são solucionáveis, remediáveis, superáveis. Questão de opinião ou não, é possível encontrar soluções e/ou alternativas que façam da derrota um triunfo quase inacreditável. Basta, para isso, ter coração.

No entanto, este meu coração que bate (de vez em quando) descompassado não consegue tudo superar. Foi ele quem me mostrou a maior derrota - e nunca poderei transformá-la em vitória. No máximo, um empate momentâneo.

Não é piegas. É queda. O desmoronar de um muro aparentemente indestrutível. É o afundar do navio mais bem construído. É o início do túnel que nunca termina. São várias formas de transcrever a minha maior derrota. Todas sem êxito.

Não vou desistir, admito. Nunca pensei em parar de correr, mesmo sabendo que chegaria sempre atrás, consciente de que no final da maratona não teria uma faixa me esperando. Porém, a vida - volta e meia - me mostra que nessa questão serei sempre derrotado.

Tive até dificuldades para dormir nos últimos dias. Como esquecer as palavras que ouvi? Como admitir que tão pequenina frase é capaz de derrubar, novamente, todas as minhas esperanças em tapar as lacunas d’alma?

Lembro-me de todas as conversas como se fosse hoje. Impossível esquecê-las. Eu teria que estar morto para não recordá-las.

- Eu vou preencher esses vazios no teu peito.
- Não vais conseguir.
- Não?... Posso tentar, pelo menos?
- Pode.

E eu tento. Todos os dias. Porém, estavas certa. Não vou conseguir.

“A mãe nunca me liga no meu aniversário”.

Puta merda, isso me destrói completamente. Mesmo o meu coração, que em relação a sangue não tem nada a ver, um verdadeiro estranho no ninho, sangra, imagina o teu que é tão intimamente conectado... Como fica o teu coração, meu amor?

É a minha maior derrota saber que mil ligações minhas não equivalem a uma ligação dela. O mais difícil ainda é compreender que quem possui a vitória na mão não a convoca. São muitas perguntas para poucas respostas. Muitas delas seriam encontradas se a invenção do senhor Bell fosse utilizada.

Porém, eu a amo demais para desistir. Não é piegas. É querer não cair. É o construir novamente um muro aparentemente indestrutível. É o colocar no mar o navio mais bem construído. É a luz no fim do túnel. São várias as formas de transcrever a minha vontade de vencer mesmo com a maior derrota à frente.

Ainda bem que o incrível Gandhi me tranquiliza. “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita”.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Há dia de luta e de glória

Eu sempre fui um felizardo. Enfrentei dificuldades que todo mundo enfrenta de forma, mais ou menos, semelhante. Porém, repito, tive muito mais privilégios do que barricadas pelo caminho. A muitas mãos os atalhos foram construídos. Não precisei abdicar (por obrigação) dos meus hobbies e dos meus momentos de lazer com familiares e amigos.

Apesar de sempre ter estudado em escolas públicas, tive a sorte de conviver com excelentes profissionais. Durante o ensino fundamental, pude conhecer e reconhecer os melhores professores. Aquelas pessoas que ganham todos os holofotes sem ter isso como primeiro objetivo de suas vidas. Gente que me fazia ir para casa com muitas dúvidas e quase nenhuma certeza. Que me incomodavam com as questões complicadas e as provas pouco acessíveis. Sim, exatamente aqueles professores que mais ouviam grosserias (ao invés de aplausos) nas reuniões com os pais. Justamente porque nós, os alunos, não estávamos acostumados a tamanho rigor, levando-nos à quase exaustão. Éramos vistos como vítimas pelos pais e, acreditem, pelos professores. Afinal, os mestres sabiam que a maioria de nós cresceu com aulas "produzidas em série". Muita cópia e pouca dor de cabeça.

A esses professores desafiadores, que muitas vezes quase derrubaram uma turma inteira, o meu mais sincero agradecimento. Vocês me fizeram mais resistente e interessado.

Logo quando iniciei o ensino médio, prometi a mim mesmo nunca mais passar trabalho nem sufoco em busca das notas. É como a frase fantástica que li dia desses no Facebook: não estudei para a prova, estudei para a vida. Com a pele cheia de marcas e os pés cascudos de tanto correr atrás da máquina, retomei as boas notas. Foram três anos de médias altas. Encontrei, novamente, professores desafiadores. Foram poucos. Conto, inclusive, nos dedos: dois. Uma dupla que valeu por todos. Dessa vez, estava blindado e as dificuldades transformaram-se em fonte de inspiração e saber. Obrigado, mestres. 

Hoje, quatro anos depois, estou formado em Jornalismo. O curso que escolhi. Como eu disse, há dia de luta e de glória. 

Apesar das dificuldades e das perdas de pessoas importantes (e insubstituíveis) ao longo da jornada, venci. Tive méritos, é verdade, e teimosia - tenho de sobra. Só que o meu sucesso foi facilitado por muitos fatores. Tentei ingressar na UFPel e integrar a primeira turma de Jornalismo da universidade, mas o meu desempenho foi bastante ruim. Tive, por conta disso, o apoio financeiro dos meus pais para que eu realizasse um curso pré-vestibular. O curso não exigia altos investimentos, longe disso, mas já servia como filtro: mesmo acessível para muitos, o curso ainda era inacessível para outros. Levei a sério, novamente, os livros. John Lennon foi o meu maior companheiro durante as "viagens" de ônibus coletivo até o centro da cidade. Suas letras, voz e talento foram o combustível que me permitiu acelerar e aproveitar esses atalhos. Deu certo. Estava na universidade!

Foi mais uma vitória. Tive, novamente, méritos. Porém, tive também uma família que me cedeu os ombros para eu alcançar degraus mais altos. Enquanto universitário, continuei a ser mais um privilegiado do que um vencedor. Eu fiz parte de uma "elite" composta por pouco mais de 7 milhões de pessoas que, assim como eu, estavam (ou ainda estão) no ensino superior. Enquanto o país tem uma população que ultrapassa os 200 milhões. Por outro lado, o curso de Jornalismo, por ser bastante novo, não disponibilizava equipamentos para a prática da profissão, laboratórios e até mesmo uma grade curricular atraente. É claro que o curso tem evoluído com o passar dos anos, mas essas ausências representaram uma dificuldade. 

Por ser incompleto, busquei fora dos muros da universidade mais conhecimento e meios de praticar o que assistia nas aulas à noite. Fiz parte de grupos de pesquisa e extensão, estágios (remunerados ou não) dentro e fora da UFPel, além de escrever para diversos sites. Ajudei a publicar um pequeno jornal impresso, fiz entrevistas e mexi com câmeras fotográficas. Todas as dificuldades anteriores serviram de motivação para buscar aquele algo mais. Clichê, mas verdadeiro.

Essa busca por mais foi valorizada pelos professores. Novamente surgiram em nosso caminho profissionais inspiradores. O mais incrível deles apareceu a quatro semestres do fim do curso. Foi pouco tempo, mas o suficiente para mexer com a nossa cabeça. Muito obrigado, professor.

Novamente: apesar de todas as dificuldades, tive o apoio de muitas pessoas importantes, que foram fundamentais para que eu tivesse os meios necessários de realizar as outras atividades - tidas por mim como complementares. Não fossem eles, provavelmente não teria conseguido. Talvez dê para me rotular como "o boxeador que tem a sorte impregnada nas luvas vermelhas".

E foi na universidade que conheci a guria da minha vida. Existem muitas dias de glória, senhores. Também temos muitos dias de luta, dias em que a vida quase nos sufoca. Faz parte.

Enfim, resumo: em nossa existência há dia de luta e de glória. Hoje é o meu dia de vitória. Sou jornalista - e vibro muito.