terça-feira, fevereiro 03, 2015

Há dia de luta e de glória

Eu sempre fui um felizardo. Enfrentei dificuldades que todo mundo enfrenta de forma, mais ou menos, semelhante. Porém, repito, tive muito mais privilégios do que barricadas pelo caminho. A muitas mãos os atalhos foram construídos. Não precisei abdicar (por obrigação) dos meus hobbies e dos meus momentos de lazer com familiares e amigos.

Apesar de sempre ter estudado em escolas públicas, tive a sorte de conviver com excelentes profissionais. Durante o ensino fundamental, pude conhecer e reconhecer os melhores professores. Aquelas pessoas que ganham todos os holofotes sem ter isso como primeiro objetivo de suas vidas. Gente que me fazia ir para casa com muitas dúvidas e quase nenhuma certeza. Que me incomodavam com as questões complicadas e as provas pouco acessíveis. Sim, exatamente aqueles professores que mais ouviam grosserias (ao invés de aplausos) nas reuniões com os pais. Justamente porque nós, os alunos, não estávamos acostumados a tamanho rigor, levando-nos à quase exaustão. Éramos vistos como vítimas pelos pais e, acreditem, pelos professores. Afinal, os mestres sabiam que a maioria de nós cresceu com aulas "produzidas em série". Muita cópia e pouca dor de cabeça.

A esses professores desafiadores, que muitas vezes quase derrubaram uma turma inteira, o meu mais sincero agradecimento. Vocês me fizeram mais resistente e interessado.

Logo quando iniciei o ensino médio, prometi a mim mesmo nunca mais passar trabalho nem sufoco em busca das notas. É como a frase fantástica que li dia desses no Facebook: não estudei para a prova, estudei para a vida. Com a pele cheia de marcas e os pés cascudos de tanto correr atrás da máquina, retomei as boas notas. Foram três anos de médias altas. Encontrei, novamente, professores desafiadores. Foram poucos. Conto, inclusive, nos dedos: dois. Uma dupla que valeu por todos. Dessa vez, estava blindado e as dificuldades transformaram-se em fonte de inspiração e saber. Obrigado, mestres. 

Hoje, quatro anos depois, estou formado em Jornalismo. O curso que escolhi. Como eu disse, há dia de luta e de glória. 

Apesar das dificuldades e das perdas de pessoas importantes (e insubstituíveis) ao longo da jornada, venci. Tive méritos, é verdade, e teimosia - tenho de sobra. Só que o meu sucesso foi facilitado por muitos fatores. Tentei ingressar na UFPel e integrar a primeira turma de Jornalismo da universidade, mas o meu desempenho foi bastante ruim. Tive, por conta disso, o apoio financeiro dos meus pais para que eu realizasse um curso pré-vestibular. O curso não exigia altos investimentos, longe disso, mas já servia como filtro: mesmo acessível para muitos, o curso ainda era inacessível para outros. Levei a sério, novamente, os livros. John Lennon foi o meu maior companheiro durante as "viagens" de ônibus coletivo até o centro da cidade. Suas letras, voz e talento foram o combustível que me permitiu acelerar e aproveitar esses atalhos. Deu certo. Estava na universidade!

Foi mais uma vitória. Tive, novamente, méritos. Porém, tive também uma família que me cedeu os ombros para eu alcançar degraus mais altos. Enquanto universitário, continuei a ser mais um privilegiado do que um vencedor. Eu fiz parte de uma "elite" composta por pouco mais de 7 milhões de pessoas que, assim como eu, estavam (ou ainda estão) no ensino superior. Enquanto o país tem uma população que ultrapassa os 200 milhões. Por outro lado, o curso de Jornalismo, por ser bastante novo, não disponibilizava equipamentos para a prática da profissão, laboratórios e até mesmo uma grade curricular atraente. É claro que o curso tem evoluído com o passar dos anos, mas essas ausências representaram uma dificuldade. 

Por ser incompleto, busquei fora dos muros da universidade mais conhecimento e meios de praticar o que assistia nas aulas à noite. Fiz parte de grupos de pesquisa e extensão, estágios (remunerados ou não) dentro e fora da UFPel, além de escrever para diversos sites. Ajudei a publicar um pequeno jornal impresso, fiz entrevistas e mexi com câmeras fotográficas. Todas as dificuldades anteriores serviram de motivação para buscar aquele algo mais. Clichê, mas verdadeiro.

Essa busca por mais foi valorizada pelos professores. Novamente surgiram em nosso caminho profissionais inspiradores. O mais incrível deles apareceu a quatro semestres do fim do curso. Foi pouco tempo, mas o suficiente para mexer com a nossa cabeça. Muito obrigado, professor.

Novamente: apesar de todas as dificuldades, tive o apoio de muitas pessoas importantes, que foram fundamentais para que eu tivesse os meios necessários de realizar as outras atividades - tidas por mim como complementares. Não fossem eles, provavelmente não teria conseguido. Talvez dê para me rotular como "o boxeador que tem a sorte impregnada nas luvas vermelhas".

E foi na universidade que conheci a guria da minha vida. Existem muitas dias de glória, senhores. Também temos muitos dias de luta, dias em que a vida quase nos sufoca. Faz parte.

Enfim, resumo: em nossa existência há dia de luta e de glória. Hoje é o meu dia de vitória. Sou jornalista - e vibro muito.




quinta-feira, janeiro 15, 2015

Silêncio na pequena casa

Meu pai, meu amigo. Enfrentamos já há algum tempo um período chuvoso. Nuvens escuras, pesadas, carregadas. A chuva não cessa sequer por um instante. Parece que a grande tempestade, no entanto, só chegou agora.

Vejo-o cabisbaixo. Durante as conversas, repetes os fatos, relatos que já ouvi dezenas de vezes nos últimos dias. Porém, procuro escutar com interesse, pois o ato de falar talvez o ajude a superar todas as barreiras impostas, que foram criadas, parece, ao mesmo tempo. 

Estou aqui para ajudá-lo, mas sei que a minha mão, mesmo estendida ao máximo, é limitada. É difícil o filho ajudar o pai. Geralmente é o contrário e, aliás, sempre e continuo sendo auxiliado por ti e pela mãe durante as nossas caminhadas.

Corro até a nossa pequena casa. O vazio e o silêncio estão escancarados aos nossos olhos e ouvidos. Procuro o guarda-chuva porque a tempestade insiste em ficar - e não tem data para sumir.

Sei também, pai, que nós dois somos teimosos. Esbravejamos muito. E perdemos o sono, quando preocupados, com facilidade. 

No entanto, meu pai, há aquele ditado que diz: após a tempestade sempre vem a calmaria. É o que espero. Desejo vê-lo calmo, pois quando estás assim nós também permanecemos bem. 

Vamos superar. Eu acredito.

Ninguém rouba o amor de um filho. Nunca roubarão. Mesmo que matem este filho que bate no peito ao dizer o teu nome. O que sinto é atemporal, imaterial e se espalha pelo ar. Meu amor e admiração por ti, pai, inundam o meu ser.

Estamos juntos. A calmaria é logo ali.

À merda os problemas! Devemos sair desta pequena casa silenciosa, pois há outra maior, avermelhada e ensurdecedora. Agora veste a camisa, vamos ao estádio.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Saí, modéstia à parte, vitorioso nos últimos anos. 2015 marca o novo passo

Olho para trás, de 2009 para cá, e percebo que cresci e amadureci. Sem ter deixado de lado, no entanto, o meu lado guri e brincalhão. Ainda sou rabugento, me estresso com facilidade, o que não é bom para mim nem para ninguém, mas consigo identificar uma evolução na vida profissional e afetiva.

Terminei o ensino médio de uma forma muito bacana. Alcancei notas altas e aproveitei ao máximo as aulas que tive. Não quis curso pré-vestibular. Para poupar dinheiro, claro, mas também porque acreditava em mim e no meu retrospecto recente. Ora, se desbravei com êxito os campos do ensino médio, provavelmente me sairia bem no exame que avaliava justamente essa trajetória escolar. Que nada. No Exame Nacional do Ensino Médio de 2009 me saí mal. Bastante mal.

Foi um soco no estômago. Uma rasteira da realidade. Eu precisava de mais.

No ano seguinte, pedi aos meus pais a inscrição num curso pré-vestibular. Obviamente não foi o mais caro, ainda bem, mas ainda um bom curso. Me joguei de cabeça. Escrevo com orgulho que não faltei a sequer uma aula. Participei de todos os plantões (aulas a mais no fim de tarde) e produzi, no mínimo, de três a quatro redações por mês. Eu queria me vingar, me superar e, claro, honrar o investimento e confiança depositados em mim. 

Em 2010, venci. Duas vezes. 

No vestibular da Universidade Católica de Pelotas, universidade privada, passei em quarto lugar para jornalismo. Fiquei bastante satisfeito, apesar de ter feito a prova já sabendo as condições (financeiras, principalmente) que me impediriam de realizar o curso. Tudo bem. Era bom, mas não era o meu objetivo principal.

No Enem a história foi outra. Fui incrivelmente bem em português e história, além de ter ido satisfatoriamente em matemática, o meu, até hoje, “calcanhar de Aquiles”. Não entrei, no entanto, na primeira chamada. Sequer na segunda ou na terceira. O número de estudantes era maior do que o número de matriculados. Simplesmente selecionavam a UFPel e o curso de jornalismo, mas não realizavam, de fato, a matrícula. Fui à chamada oral já sabendo que estava dentro. Bastava a matrícula.

Hoje, dia 15 de dezembro de 2014, praticamente me despeço do curso de jornalismo. Afinal, meu Trabalho de Conclusão de Curso foi aprovado, dias atrás, com nota 9. Minha média geral no curso é alta, atualmente 9,1. Aprovado em todas as cadeiras. Realizei, também, inúmeros estágios na área da comunicação, como a televisão, o rádio e o impresso. Saio vitorioso. 

No entanto, 2015 marca o novo passo que deve ser dado. Já formado e com o emprego que tenho hoje, como assessor de imprensa na Câmara Municipal de Pelotas, além de outras atividades, preciso me preparar ainda mais. Refazer o desafio desempenhado e superado em 2010.

À minha frente, na estrada do trabalho e crescimento, observo o estudo da língua inglesa, a preparação para concursos que me ajudem a trabalhar com o jornalismo e me deem suporte neste mundo capitalista, além do importante mestrado e mais alguns artigos, que são sempre trabalhosos e enriquecedores.

O ano de 2015 representa o novo passo. Venci até hoje, até aqui, mas preciso saltar novamente. Tenho que prosseguir. Parar agora fará com que boa parte dos muros derrubados no passado recente sejam reconstruídos. Será o ano do trabalho. Talvez o mais importante da minha vida. Nos próximos 365 dias, o meu caminho será construído com os tijolos dos muros derrubados.